Eleições 2018

Há determinados momentos da vida, em que as saídas se fecham, em que o desgosto profundo por existir é mais que um drama psicológico, constitui-se em verdadeira tragédia. Se o drama atua em nós impelido pela raiz da moralidade; o sentimento do trágico, como ensina Aristóteles, atua sobre a sociedade como formulador do ético. O ético é a força motriz que constrói a governança justa. Por governança justa entendo ser aquela que governa com isonomia, equidade de juízos e de oportunidades e que permite ao corpo social se manifestar livremente.

O colapso a que se está sujeito é profundamente grave e desesperador. As ameaças ao outro do eu, a mais frágil raiz do um, indicam significados que vão além da mera suposição. Os ataques às pessoas que optam por exercer a diversidade de gênero, aos grupos étnicos, aos opositores, fere profundamente o equilíbrio ético e permite que, ao longo de sua instalação e perduração, se elimine ou enfraqueça, física e psicologicamente, a partir das mais vis torpezas, a possibilidade sobre a qual está construído o legado ético do processo civilizatório.

O sujeito, construído ao longo dos últimos séculos, saiu de sua posição deificada, para lentamente se perceber como constituído pelo outro do eu, isto é, constituído dentro da diversidade e da percepção fragmentada na qual ninguém professa uma verdade una e indivisível. A fragmentação do sujeito permitiu que se enxergasse, por exemplo, que a paz e o amor, proposto pelos hippies, seja visto hoje como paz e amor livre para todos, presentificados nas diversas lutas das mulheres, dos negros, dos homoafetivos, dos operários e trabalhadores, dos que lutam pela preservação da natureza, entre tantos outros.

Ao mesmo tempo em que se via o sujeito se fragmentar, enxergava-se, quase como zumbis, ávidos pelos bens de consumo, o mundo se conformar com uma unidade absurda, esquizofrênica. A luta, que é sempre entre as classes sociais, passa a ser manipulada pela propaganda e pelo desejo do subjetivo açambarcado pela classe média desejosa de retornar ao império da subjetividade que tudo abarca. A propaganda tem como instrumento a vocação de igualar – no sentido mais mesquinho do termo – os desejos e, por conseguinte, a falta do que se possui como o objetivo final da vida. Nos momentos de maior autoritarismo – vide os regimes fascistas – ela se erige como arma de convencimento e ajuste de contas.

Os governantes eleitos pelo mundo afora e a possibilidade de se eleger um candidato cujas características trazem o discurso fascista mostram a força, em marcha, da deificação do sujeito. Não é à toa que o novo Deus se cria com máquinas do comercio eletrônico e favores que se restringem aos membros de seu conglomerado de fieis. O neofascismo se alimenta desse desejo de unificação do sujeito sob a égide da propaganda religiosa.

As opções que se mostram são aterrorizadoras, pois no cerne da questão o que se busca é apagar quaisquer vestígios de oposição. Por isso, devemos, e aqui assumimos a primeira pessoa, criar estratégias para que as ações, que todos sofreremos, tenham ao menos uma rede de proteção e ações que, no âmbito do possível, tornem legíveis o desconforto e a rejeição ante o domínio do cinismo, da injustiça e da crueldade.