Poema da travessia

Poema da travessia

Ana Chiara

ISBN - 978-85-65375-60-3

1ª edição, 2019

Formato:

Brochura com orelha 12x18 cm

62 páginas


Ilustração e posfácio de

Artur de Vargas Giorgi

R$35,00 - frete para o Brasil incluso

Ao que parece, nada mais ligado à orla da poesia de Ana Chiara: não sendo uma debutante literária, já que autora de uma extensa produção, sempre conduzida, aliás, sob o signo poético, trata-se neste livro do retorno e da escansão de uma cena originária; cena carregada de pathos (como toda origem, como qualquer parto) e que em intensiva reiteração se elabora. Assumo o lugar da enunciação – confim de uma proximidade possível, onde se con-sente – para reafirmá-lo: “[...] Onde salto/ Pulo fora” é igualmente onde assinalo que “[...] Começo/ Outra viagem no tempo” (do poema I). A poesia é um istmo, diz o Poema da travessia: como um acesso estreito, às vezes difícil ou intermitente, de acordo com a reversibilidade das marés. É todavia uma chance: um chão, uma passagem. Mas o que caracteriza essa passagem? O que a poesia coloca em contato? Em si, o que ela compartilha? Uma imagem aporética, que recorda as tradições taoísta e budista, para as quais “arte e arte de viver são uma mesma coisa”, pode, não obstante, ser oportuna. A aporia – ou ainda a potência: que pode e pode-não – é, neste caso, uma força característica do vazio: A poesia, um istmo, o vazio são lugares de alternância, onde as transformações trabalham. Como o estático poderia, ao mesmo tempo, ser vertiginosamente acelerado? A resposta – sugere Ana Chiara – seria: “Beija-flor parado/ Tremor de asas/ Também viaja [...]” (do poema III). A acupuntura forneceria outro acesso, ainda; uma passagem aporética entre estesia e anestesia: “Agulhas/ Viagem no fluxo do/ Sangue/ Ao cotovelo/ Dores se dissolvem/ Onde doem mais/ Agudo” (do poema IV). Neste Poema da travessia a poesia é também, então, a marca de um desencontro, de uma extemporaneidade que assoma no choque proporcionado por uma associação analógica de imagens. Certas vezes, é a temporalidade arcaica de uma infância na fazenda – entre morros, rios, bichos, ferramentas – que se desloca e força o presente com o anacronismo: “[...] A mãe viaja/ [...] Tudo muito sensível/ Viagens no cabresto/ Rédea curta/ A égua/ Trota/ No ar” (do poema IX). Outras vezes, o desejo parece buscar uma forma de se deslocar em meio à vicissitude dos dias: “[...] Tudo dependerá de minha fecunda imaginação/ E do gosto exagerado pelo real mais erradio [...]” (do poema XXII).

Do posfácio de Artur de Vargas Giorgi