Arredores

Arredores

Elesbão Ribeiro

ISBN - 978-65-990004-0-9

1ª edição, 2020

Formato:

Brochura com orelha 12x18 cm

54 páginas

R$38,00

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Orelha

É no meio do livro, ensinou Jakobson com rara margem de erro, que está o que o leitor deve reter, abrigar e expandir para as demais páginas. Assim, no centro dos 38 poemas de Arredores estão “meu pai e o museu” (“foi meu pai/que pouco sabia ler/que me levou pela primeira vez/ao museu nacional”) “deste modo” (“ao perceber que nunca fui à varanda bater panelas/deixou de ser amistosa”) e “o vizinho do quinto andar” (“vi ontem no jornal/nada mais disse/repetia simplesmente”): poemas extraordinários, que começam a deixar ver com clareza o que antes apenas era o vislumbre da beleza da tarde, o doce pássaro da juventude, a transubstanciação própria da boa poesia dando-se em nesgas, frestas, elipses. É a partir sobretudo daqueles três poemas centrais que o livro se vertebra e deixa ver o que antes apenas entrevíamos: o olhar humanista do poeta compõe um todo que diz a que veio, diz onde está e diz quando é este quando no qual nos situamos: os arredores de um país em que, pensando bem, “homens de bem” talvez não o sejam sem aspas, em que o assassinato de estudantes pobres nas vielas é prioridade para as forças policiais frente aos helicópteros dos grandes traficantes, em que a masturbação de um morador de rua ultraja mais do que cortes de investimentos em educação e saúde, em que o “bicho” de Manuel Bandeira tem seu traço distintivo detectado no aparente monturo num canto de rua: “é um homem certamente/ tem na mão um pedaço de pão.” Mas não se pense que nos adentraremos nas páginas do volume sem a generosidade do humor, que, no entanto, nunca é escape, desconversa: é um companheiro valioso de viagem do olhar humanista. No “trem noturno”, amor e humor são bons, são vizinhos e sobretudo são bons vizinhos: “não ame em vão/ame no vagão do trem/(...)/a viagem é longa/o amor é bom.” Claro está que há aqui um certo timbre oswaldiano em registro luso, que poderia dizer – se fosse o caso – “dê-me um cigarro, ó gajo!”, sem nenhum pejo ou torção de mau jeito.

Roberto Bozzetti